O canto da sereia

Agatha observava tudo ao seu redor atentamente, ela rondava a floresta em busca de qualquer sombra ou vulto, sua audição estava apurada, a procura de um farfalhar que indicasse que alguém se aproximava. Era o seu turno de vigia e ela não poderia falhar.

Todas as noites uma pessoa desaparecia misteriosamente de sua vila, sem deixar nenhum vestígio. Era como se simplesmente tivessem ido embora e deixado tudo para trás. Mas quem partiria apenas com a roupa do corpo? Não havia vida em quilômetros além da vila, e eles não sobreviveriam um dia sem mantimentos e armas na floresta escura.

Quando o primeiro homem desapareceu consolamos a jovem deixada para trás, quando o segundo desapareceu começamos a suspeitar que algo estava errado, e quando o quinto se foi tomamos providências. Ficou obvio que alguma coisa os estava levando, mas ninguém sabia o que era, ou quem era, e por isso Agatha, a única garota ruiva de sua vila, estava de vigia naquela noite fria, banhada pela luz da lua.

Um barulho chamou a sua atenção, uma porta havia sido aberta, e logo depois fechada. Agatha olhou na direção do vilarejo, as tochas iluminavam as cabanas de madeira e tudo parecia calmo, até Kylan aparecer.

­— Você me assustou Kylan – disse ela para o homem de cabelos negros, mas ele pareceu não escutá-la – Kylan? – chamou-o novamente, mas não obteve resposta.

Ele caminhava lentamente, como se tivesse um destino e não pudesse desviar-se do caminho. Agatha aproximou-se, os olhos de Kylan estavam distantes, parecia que não conseguia ver a moça de cabelos da cor do fogo acenando em sua frente.

Agatha o seguiu, mantendo uma certa distância. Talvez eles estivessem mesmo deixando suas esposas e filhos para trás e não houvesse nada de estranho nisso, mas ela achou melhor averiguar. Kylan seguiu pelo longo caminho até o lago de águas cristalinas, ele entrou na água e continuou seguindo. Havia algo ali com ele, Agatha podia ver da margem figuras na água, ela deu uma gargalhada quando percebeu que eram apenas moças, eles só estavam trocando as esposas por mulheres mais jovens e belas.

Mas de repente o jovem foi tragado para as águas, e as jovens saltaram, revelando algo que deixou Agatha assustada, elas não tinham pernas, no lugar haviam enormes caldas, como dos peixes que eles comiam no vilarejo.

Ela chamou por Kylan, mas ele não emergiu, assustada entrou na água a procura do homem, mas não o encontrou, viu apenas as caldas, nadando pelo riacho para fora do lago.

Agatha voltou correndo para seu vilarejo, gritando sem parar, todos levantaram armados e saíram de suas casas prontos para uma batalha, mas apenas encontraram uma garota ruiva ajoelhada e em prantos.

— O que aconteceu? – perguntou uma senhora de cabelos brancos.

­— Eu sei o que está levando nossos homens – respondeu a ruiva entre um soluço e outro – São mulheres com caldas de peixe… Elas levaram Kylan!

Todos começaram a falar ao mesmo tempo, causando um tumulto, uns questionavam a sanidade de Agatha, outros lamentavam por Kylan, até que a mais velha senhora de todas silenciou a todos com uma única palavra.

— Sereias – voltaram à atenção para Helga, mais espantados pelo fato dela ter dito alguma coisa, já que não ouviam sua voz há anos – Elas aparecem de tempos em tempos, seduzem os homens com seus cantos e os levam para o fundo do mar.

­— Isso não pode ser verdade – retrucou uma moça cética – Esses homens só estão largando suas mulheres.

­— Gain nunca largaria seus filhos – respondeu uma mulher de cabelos loiros, agarrando seus filhos com força, como se fossem tomados dela a qualquer momento.

— Elas são reais – disse Agatha, agora de pé e pronta para defender sua sanidade – Eu as vi com meus próprios olhos, e Kylan… Ele parecia enfeitiçado, entrou na água em direção a elas, como se tivessem o chamando.

— É o canto da sereia – respondeu Helga – Quem o escuta fica preso.

— Mas como não escutamos nada? – questionou uma mulher, e sua pergunta foi repetida por outro homem.

­— Apenas aquele a quem a canção é destinada pode escutá-la. Se querem parar as mortes, vão ter que revidar.

Barricadas foram erguidas, estacas foram colocadas em locais estratégicos, as tochas estavam espalhadas por toda vila, não deixando nenhum ponto na escuridão. As mulheres armaram-se com tudo, desde paus e madeira, até armas de caça, enquanto os homens e as crianças foram confinados em um barracão sem janelas.

As mulheres temiam o pior, temiam por suas vidas e pelo desconhecido que enfrentariam, mas não deixariam que mais ninguém fosse levado. Algumas mulheres tremiam ao segurar suas armas, mas todas permaneciam firmes em suas posições. Nas primeiras noites ninguém apareceu, alguns começavam a suspeitar de que aquilo fosse verdade, mas como explicar os homens, um em cada noite, tendo que serem impedidos de irem até o lago?

Naquela noite algo veio ao encontro do vilarejo. Começou apenas com sombras, passando correndo aqui e ali, averiguando a força de seu inimigo, canções eram cantadas, e por pouco não encantaram as mulheres. Mas afetou aos homens, um a um tentaram escapar, até que a massa de homens hipnotizados tornou-se grande de mais para as crianças e os idosos segurarem, as mulheres guerreiras tiveram que entrar em cena.

Foi quando as sereias atacaram. Elas pularam por cima das barreiras e atacaram as jovens que tentavam impedir seus homens de serem levados. Em terra firme as sereias não possuíam caldas, mas sim pernas cobertas de escamas, assim como o restante de seu corpo. Dentro da água, elas eram belas e formosas, mas fora dela pareciam bestas saídas direto de uma história de terror. Possuíam garras e dentes afiados, os olhos eram amarelados e sem pupila, qualquer um que as visse tremia de medo e não conseguia se mover por um bom tempo.

Agatha provou ser a mais forte de todas, ela lutava com mais bravura e velocidade, ela não tinha nada a perder, nenhum amor por quem lutar ou um pai para defender, ela possuía sangue de heroína em suas veias. A ruiva sempre sentiu que nasceu para lutar, para defender os fracos e oprimidos, e ela o faria. Mas até mesmo os bravos sentiam tremor na coluna vertebral ao enfrentar sereias, principalmente em terra firme.

A batalha durou por horas, e nenhuma sereia foi morta, ao contrário das humanas, que tiveram cinco baixas. Sereias não podiam ficar afastadas da água por muito tempo, ou morreriam, e foi apenas por esse motivo que a batalha cessou. Quando tudo acalmou-se e os gritos de dor e agonia ecoaram na noite, perceberam quantos homens haviam sido levados. No calor da batalha, lutando por suas vidas, tornou-se impossível impedir os homens, que dominados por algum encanto, partiram para as águas misteriosas.

Os sobreviventes reuniram-se ao nascer do sol para jogar toda a culpa em Helga.

— Não deveríamos ter lutado! Não deveríamos ter resistido! – gritou um dos poucos homens que restou – Minha esposa estaria viva.

— E você teria sido levado – respondeu Helga com toda calma, como se ninguém estivesse jogando toda a culpa em seus ombros.

— Melhor isso do que viver sem ela!

— Deixe de ser tolo. – intrometeu-se Agatha – Todos vocês. Se não resistirmos ela levaram a todos os homens dessa vila, e quem sabe não comecem a levar nossas crianças também, depois que todos se forem. Não podemos simplesmente ficar sentados observando, e muito menos segurar nossos homens, já vimos que se eles não forem até elas, elas vêm até nós.

— E o que você sugere? Lutar mais uma vez? – perguntou uma loira – Nenhuma delas morreu esta noite.

— Não podemos esperar mais um ataque – respondeu Helga – Temos que ir atrás delas, pegá-las desprevenidas. Assim salvaremos todos que elas levaram.

— Como assim? Eles ainda estão vivos?

— Sereias são carnívoras, de tempos em tempos elas procuram alimento, e quando encontram mantem suas presas vivas até o momento…

— Do jantar – completou Agata, Helga assentiu – Não ficaremos parados esperando nossa gente morrer! Vamos atacar! Vamos proteger o futuro de nossas crianças e de todos que viram depois deles.

Um grito de guerra ecoou por toda vila. Eles estavam prontos para lutar.

Partiram em canoas de madeira, em grupos de quatro, seguindo o rio que banhava o lago próximo a vila. Helga estava com eles, ela era a única que já havia visto as sereias em ação, e parecia saber alguma coisa sobre o inimigo.

Eles remavam e remavam rio à cima, mas pareciam estar cada vez mais distantes, seja lá do que estavam procurando. O sol começou a desaparecer e todos ficaram preocupados, as sereias só atacavam a noite, mas haviam percorrido um enorme caminho para voltar atrás. Quando o sol desapareceu eles desembocaram no oceano, e lá no fundo da bela paisagem havia uma ilha de pedras.

Se as sereias escondiam-se em algum lugar, seria lá, pois era tão obscuro e maligno como elas mesmas. Ao aproximarem-se sentiram as esperanças renovarem, não houve ataque algum, nem mesmo sinal das sereias, talvez estivessem descansando e só atacassem tarde da noite.

Agatha recomendou agirem com cautela, mas quando escutaram o grito de seus amados implorando por socorro, as mulheres desesperaram-se para salva-los. As canoas prenderam-se nas pedras, enquanto todos desciam pelas pedras, lá estavam todos que foram levados, amarrados as pedras, gemendo e implorando por suas vidas. Agatha sentia em seu peito que algo estava errado, estava fácil de mais. Tentou alertar seus amigos, mas já era tarde. Quando a primeira mulher jogou-se nos braços do marido o feitiço quebrou-se, revelando um corpo meio comido.

As sereias atacaram. Agatha levantou-se, pronta para ajudar seus amigos, mas alguém a prendou, colocando uma faca em sua garganta.

— Eu não tentaria combater uma sereia em água – era a voz de Helga em seus ouvidos – elas ficam muito mais poderosas.

— Você nos trouxe para uma armadilha – deduziu Agatha.

— Só os espertos sobrevivem, ruivinha, ninguém pode enfrentar uma sereia e sair vivo. Elas são imortais, sabia? E muito poderosas. Depois de quase terem aniquilado nossa vila anos atrás, eu fiz um pacto com elas, para garantir que minha linhagem nunca seria levada, em troca eu só precisava garantir de que todos os adultos fossem levados quando elas voltassem.

— Já sabia que eles estavam mortos, não é mesmo? – perguntou o óbvio.

— Claro. As sereias entram em um longe período de hibernação, para isso precisam estar bem alimentadas, e quando acordam… Bem, a fome é grande de mais para guardar uma presa viva.

— Você vai pagar por isso, Helga – ódio e raiva martelavam no peito de Agatha, ela queria rasgar a senhora ao meio pelo que fez com sua vila, mas as sereias cercaram a canoa que balançava com a agitação das duas passageiras.

— Agatha… – disse uma sereia de cabelos negros como a noite, ela era tão linda, que até mesmo uma mulher se encantaria por tal beleza – Seus cabelos são tão raros de encontrar. Assim como sua bravura.

— Solte-a Helga – disse outra – Ela não nos servirá como alimento, ela fará parte de nossa família. E será a mais letal e bela sereia de todas.

Helga soltou a garota, que tentou lutar contra as sereias, mas foi inútil, Agatha foi puxada para as profundezas do oceano. Não importa o quanto lutasse contra elas, as sereias sempre seriam mais forte.

Água entrava em seus pulmões, que ardiam pela falta de ar, mas essa dor foi substituída por outra mais forte, um tridente fora cravado em seu coração. Uma luz estranha emanou dele, enquanto a escuridão tomava conta de seu ser.

Quando Agatha acordou a única coisa em que pensava era na fome enorme que sentia, na vontade de ter a carne humana em entre seus lábios e o sangue escorrendo por seu corpo.

Ela lutou contra as sereias no início, mas agora nadava ao lado delas, levando homens de seus lares, seduzindo-os com sua canção e beleza, fazendo navios naufragarem. Agatha agora era uma delas, e a mais letal de todas.

 

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